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Domingo, 04 de Outubro 2026
Política

Lula tenta se aproximar de líderes de direita, de olho em pragmatismo com Trump

A estratégia já está em curso e será priorizada pelo Itamaraty ao longo do primeiro semestre, antes das eleições presidenciais.

Tá Rolando no Entorno
Por Tá Rolando no Entorno
Lula tenta se aproximar de líderes de direita, de olho em pragmatismo com Trump
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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva recalibrou a política externa para reforçar uma face de pragmatismo e tentar se aproximar de governantes de direita, diante de um cenário adverso na América Latina, com a nova estratégia de segurança nacional de Donald Trump e a ascensão de governantes alinhados ao americano.

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A estratégia já está em curso e será priorizada pelo Itamaraty ao longo do primeiro semestre, antes das eleições presidenciais. Nesse período, Lula pretende fazer alguns deslocamentos ao exterior. O governo já mobilizou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para estreitar laços em viagens precursoras ou mesmo próprias, levando a visão do Palácio do Planalto.

Em ano eleitoral, Lula quer reforçar uma imagem mais pragmática da política externa e evitar desgastes em temas sensíveis, como a Venezuela.

Na segunda-feira, dia 26, Lula conversou por quase uma hora ao telefone com Donald Trump, em mais uma etapa da construção de um relacionamento marcado por interesses opostos e um passado recente de embates. Eles agendaram para o fim de fevereiro uma visita de Lula a Washington, oportunidade que poderá selar a mudança de rota com os Estados Unidos de Trump.

Na terça-feira, dia 27, Lula desembarcou no Panamá para dar mais mostras da presença brasileira na região e dizer aos líderes latino-americanos que está disposto a trabalhar com todos, independente de ideologia, e em projetos concretos.

O presidente vai reforçar a visão que expôs em artigo ao The New York Times, uma proposta alternativa à repaginação da doutrina Monroe, sugerida por Trump, e defende que o hemisfério pertence a todos, contra a ideia de “quintal” americano.

A chancelaria brasileira trabalhou nos bastidores para que, durante a viagem à Cidade do Panamá, uma forma de retribuir as visitas do presidente José Raúl Mulino, Lula consiga manter as primeiras reuniões bilaterais com os novos presidentes do Chile, José Antonio Kast, e da Bolívia, Rodrigo Paz. Ambos de direita, eles derrotaram a esquerda em eleições recentes e não tinham relações prévias com o petista.

A reunião com Kast foi um dos primeiros compromissos de Lula no Panamá. Ele assumirá o cargo em março, sendo o primeiro presidente eleito no país com a imagem vinculada a elogios passados à ditadura chilena de Augusto Pinochet. Ele é aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e crítico frequente de Lula, a quem associou à corrupção.

“Os desafios da América do Sul em matéria de segurança, progresso econômico e superação da pobreza são enormes e a colaboração de Estado, entre Chile e Brasil, pode liderar a mudança que nossa região necessita. Agradeço a reunião construtiva com o presidente Lula”, registrou Kast, em suas redes sociais.

“Reiteramos a importância de manter e aprofundar as relações bilaterais entre Brasil e Chile, destacando a disposição de ampliar a cooperação em áreas como infraestrutura, energia renovável, comércio e turismo”, disse Lula, ao divulgar fotos e vídeos do encontro.

“Enfatizei que o programa Rotas de Integração Sul-americana está estruturando dois corredores bioceânicos que utilizarão portos chilenos para facilitar a integração entre Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Chile, fortalecendo a conectividade regional. Tratamos ainda da necessidade de promover a estabilidade regional, reforçar a segurança pública e intensificar ações conjuntas de combate ao crime organizado, reconhecendo a importância da cooperação para enfrentar desafios comuns”, citou o brasileiro.

Agora, Lula também esperar conversar com Paz, que encerrou duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo na política boliviana.

Integrantes do governo pregam internamente que o presidente pratique uma política externa despida de qualquer “verniz ideológico” e que não pode permitir a formação de um “Grupo de Lima” contra o Brasil – uma referência à aliança de direita que funcionou como um foro de articulação política contra o ditador Nicolás Maduro, na Venezuela.

Desgaste com o chavismo

Lula já havia se distanciado de Nicolás Maduro em 2024, após a fraude eleitoral em Caracas, depois de ajudar a reabilitar o ditador agora deposto e preso, em 2023. Ele admitiu internamente o quanto se desgastou com o tema Venezuela.

No ano passado, o governo já tinha percebido o choque de realidade e diagnosticado que as alianças políticas na América Latina, e seus principais foros, estavam fragilizados e bloqueados para amplos consensos e decisões pró-integração.

O presidente pretende continuar a defendê-la, mas admite o fracasso de tentativas de recriar a Unasul (União de Nações Sul-americanas), ou obter sucesso diplomático na Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos).

E quer focar em temas caros e sensíveis eleitoralmente, a exemplo de comércio e combate ao crime organizado, com propostas de cooperação concretas, como um plano enviado ao Departamento de Estado e o centro de cooperação policial em Manaus.

O governo vislumbra agora uma nova onda à direita que deve isolar a esquerda no poder apenas no México e no Uruguai, entre os países mais relevantes. Há eleições neste ano, além do Brasil no Peru e na Colômbia, com favoritismo para nomes da direita. Nos últimos anos, o petista viu aliados, aos quais apoiou, derrotados também no Equador e na Argentina.

A diplomacia quer conter danos e reduzir riscos. Apesar da boa relação com Trump, integrantes do governo ressaltam que nada garante que, diante de uma janela e vislumbre chance, o governo americano não tente alguma interferência eleitoral, caso consiga apoiar um presidente à direita com chances de vitória e que se mostre mais simpático ao americano do que Lula. O temor existe no Palácio do Planalto. Uma prioridade é tentar preservar as eleições de interferências externas, entre elas, no ambiente digital.

Como parte da estratégia, o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) viajou nesta semana a países governados pela direita em busca de abertura de relacionamentos políticos. O chanceler faz três visitas próprias – e acompanha Lula no Panamá.

Ele visitou na segunda em La Paz o ministro das Relações Exteriores, Fernando Aramayo, e reforçou o desejo de Lula de se reunir com o presidente boliviano.

Nesta quarta-feira, 28, Vieira acompanhará Lula no Panamá. Na quinta e sexta-feira, dias 29 e 30, Vieira e sua equipe para a América Latina desembarcam em Lima, para reunião com o chanceler peruano Hugo de Zela, e em Quito, para reunião com a ministra equatoriana Gabriela Sommerfeld.

“Não focamos na orientação política de cada governante”, disse a embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe, para quem o País vai manter relação prioritária vigorosa e intensa com todos os países e mostrar capacidade de dialgoar, mesmo com divergências.

A despeito dos embates com Javier Milei e do diálogo político ainda travado com Lula, integrantes do governo ressaltam que existe uma relação funcional com a burocracia argentina e que os interesses privados também fluem, dada a integração entre as economia.

 
 
 
 
FONTE/CRÉDITOS: Estadão Conteúdo.
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